quarta-feira, 26 de outubro de 2016

Tuna Feminina do O.U.P. 1988



Entrevista a uma das fundadoras da TunaF, Margarida Paula Salgado - a quem agradeço a simpatia e colaboração  - que nos deixa as seguintes memórias sobre a génese da Tuna Feminina do Orfeão Universitário do Porto.






1) Como foi, então, à época, o processo de fundação da Tuna Feminina do Orfeão Universitário do Porto?


MPS -A Tuna Feminina (TunaF) não foi formada como tal, ou seja como tuna. Foi antes uma brincadeira cujas consequências foram, de todo, imprevisíveis.

A inclusão de uma tuna nos espetáculos do OUP foi um desejo da Direção de 1984/85. À época não havia tuna no OUP; apenas havia tuna na AAOUP (Associação dos Antigos Orfeonistas da UP).

Deste modo começou-se a ensaiar alguns temas com o antigo orfeonista entretanto falecido, Lauro Paupério. Era uma tuna que se apresentava de modo “tradicional” (1ª fila sentada, 2ª fila de pé…) e nela se incluíam orfeonistas que tocassem ou “arranhassem” qualquer instrumento, fossem rapazes ou raparigas. Não teve um percurso muito consistente e a tuna acabou por apenas servir para finalizar os espetáculos do OUP com os “Amores de Estudante”.

O que é certo, quando se decidiu mesmo formar uma tuna no OUP, (julgo que a ideia foi até reforçada com uma ida do Tozé Vasconcelos e mais alguém a Cádis, onde tiveram a oportunidade de ver e entender o espírito das tunas académicas espanholas) ela era mista pois integrava quem nela quisesse participar ou soubesse tocar algum instrumento.

Nunca houve qualquer mau estar, que eu sentisse, em relação a haver mulheres na tuna que à data, seriam umas três ou quatro…. Parecia ser tudo aceite com muita naturalidade.

Pessoalmente participava em todas as saídas e brincadeiras, inclusivamente nas serenatas que os colegas decidiam fazer aos lares femininos. Apenas me recatava um pouco…. Estive no batismo da Tuna e assinei a fita do estandarte; toquei nos primeiros FITU’s, fui ao Festival de Tunas “Ciudad de Burgos”,… E nunca me senti mal por isso nem fui mal tratada ou excluída.

Entretanto havia uns tantos tunos que namoravam com outras tantas meninas que não pertenciam à Tuna… É natural que essas não gostassem tanto da brincadeira e, obviamente, iam reclamando…. E, segundo sei, eles lançaram-lhes o desafio para também fazerem serenatas. Se o conseguissem, eles iriam para a Baixa em cuecas!...

Foi assim que surgiu a ideia, não de fazer uma tuna, mas de ensaiar umas musiquinhas para fazer uma serenta…

E assim foi! Como eu era daquelas que “alinhava” sempre em tudo também fui incluída na brincadeira. Escolhemos 3 músicas: uma delas (a “Queda do Império” do Vitorino) cantada por mim e com letra alterada mas apropriada para o efeito, outra com letra original mas adequadíssima (“Que diferença a mulher, do homem, tem? Espera aí, que eu vou dizer, meu bem…”) e uma terceira, de cariz popular.

Entretanto, sabendo-se que um grupo de raparigas andava a ensaiar umas coisas, inclusivamente a aprender a tocar instrumentos com umas dicas dadas pelos próprios elementos da tuna, fomos convidadas a participar no Sarau Cultural da Queima das Fitas de 1988, no dia 1 de maio, no Cinema Vale Formoso.

Foi assim a primeira atuação daquele grupo, que na época não tinha a designação de tuna, nem qualquer pretensão de ter, mas que o Jornal Universitário (JU) refere como tal na sua edição de Junho de 1988: “Também a manifestação mais académica da noite esteve ligada ao ORFEÃO com a apresentação de uma tuna unicamente constituída por mulheres, pois embora ainda não ligada no nome as suas componentes são todas desta “casa”!”

Esse grupo feminino manteve-se junto apesar de não participar regularmente nos espetáculos do OUP. Viria a fazê-lo no Sarau Anual do OUP de 1989.

No entanto, volta a marcar presença na Queima das Fitas de 1989, abrindo o II Festival Internacional de Tunas Académicas, no Coliseu. A esse propósito “O Comércio do Porto”, na sua edição de 14 de maio de 1989, refere “A abertura coube à Tuna Feminina do Orfeão Universitário do Porto, com 21 elementos.”

Acrescento que, nesse ano, foi feita a tal serenata, ao José Alberto Frias Bulhosa, Magister da Tuna Universitária, aquando da festa do seu aniversário. Mas, que eu saiba, os rapazes nunca foram para a Baixa em cuecas. Ou melhor, eles dizem que sim, pois quando lá vão, vão sempre com cuecas….. ;)






2) Tratou-se de algo quase inevitável, uma espécie de rebelião feminista orfeónica ou então um simples acto de criação de algo que faltava ao elenco do espetáculo do O.U.P.?


Como já referi, tudo não passou de uma brincadeira por causa de uma aposta. Nunca houve aquela pretensão de formar uma tuna feminina em oposição à dos homens, muito menos para colmatar qualquer lacuna no panorama cultural e artístico do OUP como tantas vezes ouvi. Não! Foi um mero acaso que levou a resultados inesperados. Longe de nós que tal iria originar o “boom” de tunas que a partir daí se verificou!

Evidentemente que, uma vez formada e com consistência, ela passou a fazer parte do espetáculo do OUP, quanto mais não fosse, diversificando-o. E, obviamente, as raparigas foram, com toda a naturalidade, abandonando a Tuna Universitária.





3) Encontraram resistências, então? Internas, externas?


Pessoalmente, nunca me apercebi de qualquer tipo de resistência ou crítica relativamente à formação de uma tuna feminina. É até natural que houvesse um ou outro comentário mais apimentado mas nada que nos afetasse ou atingisse. Alem disso, o OUP já era um agrupamento misto pelo que a participação de homens ou mulheres no espetáculo era até encarada como coisa normal.

Externamente, enquanto lá estive, também não me lembro de qualquer tipo de resistência ou incómodo. Acho que porque era tudo muito novo e inesperado. A primeira apresentação, em 1988, quando a Tuna ainda não era considerada tuna, foi uma surpresa de que ninguém estava á espera mas, aquando da abertura do II FITA, recordo uma bocas que se ouviram no Coliseu a mandarem-nos coser meias, ir tomar conta das panelas e coisas do género…. E também choveram umas moeditas!...




4) O processo evolutivo foi algo solitário – dado quase não existirem tunas femininas então – ou, noutro sentido, foi colmatado pela envolvência do próprio O.U.P.?


No meu entender, acho que a evolução da TunaF foi um processo solitário. Numa época em que quase não havia outros grupos académicos era natural que nós, orfeonistas, vivêssemos muito virados para o interior do OUP, alheados ao que se passava fora, no ambiente das faculdades.

Por outro lado, o OUP procurava diversificar os seus espetáculos e o surgir de um grupo novo era sempre bem-vindo. Aliás, nem sequer era estranho porque houve diversos grupos que apareceram e desapareceram no Orfeão. Talvez, naquela época a Tuna feminina fosse mais um deles… Sem qualquer pressão ou obrigatoriedade de existir como se fosse um dos grupos base do OUP. Por isso, acho que a TunaF nasceu, foi acolhida e cresceu dentro do OUP.


5) Existem certamente momentos únicos na vida da Tuna Feminina do O.U.P. Quais foram?


Infelizmente não vivi os grandes momentos da TunaF pois em janeiro de 1990 fui viver para Lisboa, sendo obrigada a cortar o cordão umbilical que me ligou ao Orfeão, durante 9 anos, de uma maneira drástica e obrigatoriamente eficaz.

A TunaF deverá ter muitas histórias para contar mas, enquanto membro da sua primeira formação, só poderei destacar o quanto nos divertimos, o entusiasmo, a excitação de estarmos a preparar algo para fazer a tal serenata surpresa!

No aspeto pessoal não posso deixar de destacar um elogio que recebi, da parte de um então aluno da FEUP que, mais de 20 anos volvidos, me disse que nunca há de esquecer como a minha voz enchia o Coliseu ao cantar a “Queda do Império”…

Há meia dúzia de anos, a convite, voltei à TunaF para participar, pontualmente, em alguns festivais e atuações comemorativas como o 20º Aniversário ou o XXV FITU. O facto de a TunaF ter ganho alguns desses festivais comigo em palco e o carinho com que sempre me receberam, foram motivo de imenso orgulho e poder olhar para trás e verificar que de algum modo pude contribuir e fazer parte da sua história é sempre uma sensação indescritível!





6) Vista à distância, como enquadrar hoje a Tuna Feminina do O.U.P no contexto actual Tuneril?



Penso que a TunaF não tem, atualmente, uma vida fácil! A oferta para as estudantes é muita, variada e de qualidade. A vida académica é vivida de um modo mais apressado e não há tempo para se dela disfrutar como se fazia, por exemplo, no meu tempo.

Contudo, sem querer dizer se é bom ou mau, se tem vantagens ou desvantagens, a TunaF é e sempre foi, uma tuna diferente.

Ao longo dos anos tenho assistido a muitas atuações de tunas, a muitos festivais, e, desde logo me chocou ver as tunas femininas como uma imitação das tunas masculinas.

A TunaF tem primado pela diferença ao valorizar a harmonia vocal (ou não fosse ela saída de um orfeão!), ao primar pela feminilidade, pela postura que apresenta em palco, pelo resistir em fazer esquemas acrobáticos com estandarte ou pandeiretas com as outras, frequentemente, fazem.

Recentemente, tem introduzido um ou outro esquema de pandeiretas, normalmente muito subtil, pois os regulamentos dos festivais assim obrigam. No meu entender, é absurdo. Penso que a pandeireta deve ser encarada como um outro instrumento musical e o estandarte deve ser um elemento identificativo e não um objeto para acrobacias.

Por outro lado, a TunaF é um grupo artístico que faz parte do OUP e não pode nem deve ser dissociada dele.


Entrevista 11/10/2016

quinta-feira, 27 de junho de 2013

I FITU Cidade do Porto - 1987

Deixo um depoimento deveras interessante sobre o embrião do que foi o I Festival Internacional de Tunas Cidade do Porto. Quem no-lo conta é o proponente da ideia, António José Vasconcelos:


“Numa reunião preparatória das Comemorações dos 75 anos do OUP, algures no final do terceiro trimestre de 1986, ao propor-se um programa de actividades para os 75 anos, foi proposto pela Direcção a realização da [I] Bienal [de Canto Coral do Porto] e de uma exposição, mas achou-se que seria pouco…”

A Tuna Universitária do Porto (tal como a conhecemos hoje) estava a dar os primeiros passos: “eu propus, um pouco a medo digamos, a realização de um Festival Internacional de Tunas Universitárias, já com o nome de “Cidade do Porto” [o comum em Espanha era os festivais terem como subtítulo o nome da localidade de acolhimento], (…) eu vivia em Fafe, e lá via melhor a TVE do que a RTP (coisas do passado recente ) e levantava-me sempre cedo aos Sábados de manhã para ver o Concurso de Tunas do “Gente Joven”.

Sempre imaginava a nossa Tuna do OUP (que era assim ainda chamada) a deixar as cadeiras de lado, a colocar os nossos emblemas da capa bem à vista, a balançar enquanto cantava e mandar umas larachas no meio das músicas…muito à imagem do que via nesse concurso (…).”

No concurso desse ano destacou-se a Tuna Universitária de Medicina de Cádis, razão pela qual foi convidada a vir no ano seguinte, juntamente com o coro da Universidade, já que vários integrantes da tuna pertenciam também ao Coral Universitário de Cádis - um dos convidados para a Bienal dos 75 ano, que, aliás, teve um sucesso assinalável. Porquê um festival de tunas (e não outra coisa qualquer)?

“Apareceu antes, realmente uma ideia de fazermos um Festival de Folclore Internacional… mas como, nessa altura, havia um em cada esquina, a ideia ficou por aí… e avançámos com as iniciativas inéditas ou quase… por uma questão de prestígio e inovação… e resultaram… pena foi que não continuassem com a Bienal… (…) ainda antes do I FITU, eu e o Miguel Araújo fomos convidados a ir a Cádis (presumo que em Junho/Julho 1986) para nos apercebermos do que era o ambiente de Tunas e de Festival de Tunas, que foi num pequeno Certamen de tunas de Jerez de la Frontera, com várias tunas de Espanha… e assim foi durante 4 dias! O FITU já foi organizado muito à imagem de um Certamen… com pasacalles, apresentações noutras cidades, etc.”

O I FITU teve um carácter não-competitivo: o que se pretendia era assinalar as bodas de diamante do OUP, por um lado, e criar/reforçar laços de amizade e fraternidade académica, por outro. Começámos por investigar que outras tunas de carácter estudantil existiam em Portugal. Em 1986, o panorama era mais do que escasso e resumia-se aos dedos de uma mão: OUP, Associação dos Antigos Orfeonistas da UP, Tuna Académica da Universidade de Coimbra, Estudantina Universitária de Coimbra, Tuna dos Politrecos da UTAD e Tuna Académica do Liceu de Évora.

Responderam favoravelmente a Tuna da AAOUP (nem podia deixar de ser), a TALE e os “Politrecos”. De Coimbra, a TAUC respondeu que “ao Porto, nem pensar. Nós só participamos em Certamenes em Espanha.” Respeitou-se a vontade. Perante uma resposta deste teor, já nem se convidou a Estudantina. Era este o lamentável estado das “relações” entre instituições universitárias nesses tempos. Felizmente, assistiu-se a uma inversão total: Estudantina e Universitária só não são irmãs no papel – prova do amadurecimento pessoal e institucional. A partir daqui, a história do FITU é conhecida, com os seus altos e baixos, grandezas e misérias, encontros e desencontros com a História.


[Agradecimento ao Tó-Zé Vasconcelos pela paciência e ao Eduardo Coelho pelo preciso auxilio…]

quarta-feira, 26 de junho de 2013

Tuna de Engenharia da Universidade do Porto - 1988



Do historial da Tuna de Engenharia da Universidade do Porto retiramos o seguinte texto - muito pouco mutável, aliás, ao longo dos anos se analisados alguns libretos de certames de outros tempos. De notar que no seu sitio na internet  - http://gnomo.fe.up.pt/~teupwww/novo/index.php - consta ainda a relação dos seus fundadores e onde se constata a sua natureza mista à data da sua fundação.




"Nasce a 7 de Novembro de 1988. O Rio Douro, os barcos rabelos, os monumentos, as ruas, o ressurgir das Tradições Académicas, fazem com que a Urbe reconheça o seu peso histórico, Berço ideal para que, inspirados pelo romantismo e beleza da Cidade Invicta, se concretize um velho sonho: A Tuna de Engenharia da Universidade do Porto!


Sendo a segunda Tuna mais antiga da Cidade do Porto e a primeira exclusiva de uma Faculdade é pois, precursora do fantástico movimento musical que entretanto se gerou. A formação de Tunas na maioria das Universidades, Faculdades e Institutos da Academia do Porto e do resto do País, assim como os sucessivos Festivais e Encontros de Tunas são disso prova.

Tem por apanágio o convívio são, boémio e com cantigas que deleitam. Ponto de encontro de amizades, com chatices à mistura, revela um espírito peculiar pela motivação e empenho que deve reger o seu comportamento.


Pela Praxe: disciplina e educa.
Pela Música: instrui e diverte.
Pelo Espírito: é perseverante e lutadora.





Complementar de uma vida estudantil exigente, é o escape e a distracção, sendo uma forma saudável de estar na Universidade. Os magros patrocínios que lá vão chegando evitam, por vezes, que cada um despenda do seu próprio bolso. Sem fins lucrativos, apenas a troco de transporte, dormida e uma boa jantarada, fazem as malas e seguem para mais um espectáculo. Ao todo já somam mais de uma centena por essas cidades do país e do estrangeiro. Com actuações na Alemanha, Holanda, Bélgica, França, Espanha, Inglaterra e Brasil, assim como nos Arquipélagos dos Açores e da Madeira.

As suas canções ficaram marcadas no tempo, no disco que a Tuna editou na Queima de 93, e no CD "Para lá dos Palcos" editado em Março de 2007, contendo clássicos da TEUP como "Só um beijo" ou "Ojos de España", até instrumentais como as "Czardas" de Monti ou "Peer Gynt" de Grieg.





O carinho que toda a Academia lhe dedica, é a razão de ser dos sucessivos convites para as diferentes actividades académicas, e outras, que lhe têm sido dirigidos. A Tuna de Engenharia da Universidade do Porto, será sempre uma presença certa no meio universitário, nas ruas do Porto, em serenatas às donzelas e no coração de quem por ela passou e irá passar."


[Agradecimentos: Marco Coelho e Pedro Gonçalves - TEUP]

segunda-feira, 24 de junho de 2013

Ultimo Quartel do Séc.XX na Academia do Porto


O ultimo quartel do Século XX referencia o surgimento tímido 1º e depois explosivo - de onde veio o termo «boom» aplicado a esse ressurgimento - trouxe o nascimento da esmagadora maioria das Tunas estudantis que hoje conhecemos na Academia.


Vamos a par e passo e por ora, quedar-nos nas fundadas oficialmente nos anos 80 do Século XX: Tuna de Engenharia da Universidade do Porto e Tuna Feminina do Orfeão Universitário do Porto.

Trata-se da 1ª tuna exclusivamente de uma Faculdade em Portugal e, no caso da 2ª, da 1ª Tuna Feminina Portuguesa nesta época - o  "Qvid Tvnae" referencia outros agrupamentos anteriores, embora não com carácter formal e permanente.

Refira-se que as datas de fundação nas tunas estudantis referenciadas  são indicadas pelas mesmas, no entanto, sabe-se e com conhecimento de causa, quer junto dos intervenientes, quer presencialmente, que em muitos casos a actividade tuneril já era exercida anteriormente à data de fundação indicada - que não raras vezes serviu o propósito de marcar uma data fixa, ou por força de algum momento em especial (espectáculo, etc) ou então por via da mera fixação dessa data.

Brevemente daremos tal à estampa.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

"Capas Negras" [1947] e a Tuna no Porto.


O Dr. Eduardo Coelho deixa-nos esta interessantíssima reflexão e não menos pertinente análise ao filme "Capas Negras", análise esta que vai mais além na dissecação do conteúdo, contexto histórico e geográfico do mesmo, numa época onde a 7ª Arte em Portugal era particularmente dirigida para a propaganda simples e ao mesmo tempo franca das virtudes nacionalistas, com as tradições culturais bem vincadas nessa cinematografia que nos legou títulos como "O Pai Tirano", "Costa do Castelo", "Cantiga da Rua" e  "Pátio das Cantigas"  - somente para citar alguns.

A iconografia associada ao Estudante não poderia faltar, naturalmente, nesse contexto tão intrinsecamente português quanto genialmente manipulador de massas, tão em voga então nas ditaduras europeias do pós 2ª Guerra Mundial e mesmo anteriormente a este período - recorde-se Franco e o S.E.U. p.ex. - que pretendiam elevar as ditas virtudes e traços genéticos culturais como forma de afirmação de um Povo além mas principalmente, e no nosso caso, aquém fronteiras. Amália contracena neste filme com o grande Alberto Ribeiro - interprete original do tema "E o Porto é Assim", p.ex - um dos nossos grandes tenores portugueses e na senda de Tomás de Alcaide, Luís Piçarra, Tristão da Cunha ou Loubet Bravo. É a análise, quiçá, inédita, do Dr. Eduardo Coelho e face ao filme em causa, que aborda muito mais do que aparentemente, o mesmo sempre mostrou.

Desde logo, a relação também deste filme com a Academia do Porto, aqui superiormente explicada pelo seu autor. Clara fica também - e MAIS uma vez - a inobservância de determinadas figuras naqueles tempos e que hoje se arrogam proprietárias da Praxe. Ao Dr. Eduardo Coelho os créditos devidos e um agradecimento especial meu, pedindo desculpa por este "prefácio" da minha autoria, seguramente menor e logo, dispensável face à superior qualidade do texto abaixo.


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“Capas Negras" é um filme português, realizado por Armando de Miranda em 1947. Tem argumento de Alberto Barbosa e José Galhardo. Os principais actores são Amália Rodrigues, Alberto Ribeiro e Artur Agostinho, Vasco Morgado, Barroso Lopes, Humberto Madeira, António Sacramento e Graziela Mendes.

O filme foi estreado em Maio de 1947 e bateu todos os recordes de exibição até então. A seu lado está Alberto Ribeiro. Foi gravado na Real República do Rás-Teparta, na Rua dos Estudos, em Coimbra. Esta república viria mais tarde a mudar-se para o n.º 6 da Rua da Matemática, onde ainda hoje se encontra, em virtude da demolição de casas de habitação da alta coimbrã para construção das Faculdades. "Capas Negras" esteve 22 semanas em cartaz, tornando-se no maior sucesso do cinema português. Amália obteve o maior sucesso como actriz.”

Fonte: http://pt.wikipedia.org/wiki/Capas_Negras

Não admira que o filme (disponível em http://www.youtube.com/watch?v=2wK6oQzd07g) tenha feito tanto furor à altura – atente-se no elenco. O enquadramento, em si, num espaço físico, social e “etário” que assume quase as proporções de mito – a Coimbra dos relatos humorísticos e saudosos de Trindade Coelho, de Antão de Vasconcelos e de tantos outros que dão sentido à famosa quadra do Vira de Coimbra:


Coimbra, terra de encantos,
Fundo mistério é o seu:
Chega a ter saudades dela
Quem nunca nela viveu.

O encanto do filme reside precisamente na evocação desse espaço-tempo de sonho, que faz com que cada português sinta Coimbra um pouco também como sua e se reveja nas aventuras, venturas e desventuras de uma cidade eternamente jovem.

E é como “documentário” desse “sonho” - passe a contradição – que a película se torna especialmente eficaz.

Para nós, o filme começa a ter interesse a partir de 0:51:41, altura em que a acção se transfere para o Porto

Particularmente interessante é o discurso feito no jantar de despedida do “Coca-Bichinhos”. Antes de anunciar a partida do colega para o Porto, prática corrente à época – e que explica os fortíssimos laços que unem as duas academias e a influência (e até certo ponto descaracterização) que a praxe portuense sofreu por parte da praxe coimbrã(1), o “Manecas” (Artur Agostinho) proclama:

Estamos aqui reunidos na tasca da Ti’ Zefa para festejar o honroso convite que foi dirigido à Tuna e ao Orfeão de Coimbra para se irem exibir triunfalmente em terras de Espanha.

O filme segue o seu curso, com imagens do Porto dos anos 40 (Estação de S. Bento, pontes de D. Maria e D. Luís, Aliados, a Foz, o Coliseu...)

A 1:20:09, surge uma página de jornal com a seguinte “notícia”:

Partiu para Espanha a Tuna Académica de Coimbra que leva como cantor de fados o distinto advogado Dr. José Duarte.

O Jornal de Notícias prossegue:

MADRID, 9 – Estreou-se a Tuna Académica de Coimbra. Êxito extraordinário do Dr. José Duarte.
O Diário de Coimbra dá a seguinte nota:

VIGO, 26 – A Tuna e o Orfeon de Coimbra obtiveram um triunfo completo nesta cidade.
E, n’O Comércio do Porto:

De regresso da Galiza chegam hoje ao Porto a Tuna e o Orfeon da Academia de Coimbra.

Este destaque dado às deslocações dos agrupamentos tuneris portugueses ao estrangeiro (sobretudo a Espanha) era prática corrente. E era indiferente que a tuna fosse do Porto ou de Coimbra: a simpatia era idêntica, sendo os estudantes acarinhados pela imprensa de norte a sul do País.

Especialmente interessante para o “Portus Cale Tunae” é o facto de uma tuna ser filmada nesta cidade.

Em 1:20:46, vemos os tunos de Coimbra a sair da Estação de S. Bento, onde foram recebidos pela população e pelos colegas do Porto , saindo do recinto sob um fortíssimo aplauso e vivas a Coimbra. E nova cena deliciosa: o “Zé Duarte”, ainda trajado, acabado de chegar da digressão, corre ao Tribunal a defender a sua amada “Maria de Lisboa”, que desprezara injustamente. A quantos de nós não sucedeu já irmos para o trabalho ainda trajados, depois de uma digressão ao estrangeiro... ou às janelas das vizinhas...

Contudo, é a partir de 1:30:39 que assistimos a algo inédito – e, cremos nós, irrepetido - em todo o cinema português: uma tuna no grande ecrã.

A cena é filmada na escadaria do Tribunal de S. João Novo (Tribunal da Relação). A música – e sobretudo a letra – transportam o presidente do Tribunal para os seus tempos de juventude em Coimbra e abafam por completo o discurso moralista do Procurador do Ministério Público. A assistência já não consegue ouvir os argumentos sisudos, legalistas e eloquentes do esforçado tribuno. Debalde tenta fazer-se ouvir, mas já ninguém lhe presta atenção, transportados que estão todos pela música que chega do exterior.

E o filme termina justamente nessa nota etérea e quase onírica. A Tuna vem salvar uma inocente das garras de uma lei que se refugia nos aspectos formalistas para obter uma condenação exemplar. No entanto, e pela voz da Tuna, “outro valor mais alto se alevanta”: o amor redime mais que a justiça – um acto de justiça poética, na verdadeira acepção da palavra.

Pelo meio da trama ingénua, alguns aspectos importa retirar, no que à tuna concerne:

1) A popularidade e a estima de que a tuna estudantil goza junto da população em geral;

2) O sentido de fraternidade entre os elementos das duas academias, sem bairrismos bacocos e despropositados;

3) Curiosamente, o “estigma” social de que o “Dr. José Duarte” foi vítima, pelo facto de ser “fadista”, manifesto na ausência de clientes, que desconfiavam das competências científicas do “advogado-cantor”, preconceito que ainda hoje se faz sentir sobre os tunos;

4) A postura da tuna, que interpreta o tema de pé, na escadaria, algo absolutamente incomum numa altura em que as tunas actuavam sentadas;

5) Sendo de Coimbra, a tuna actua de capa pelos ombros, não de capa traçada, ao contrário do que tanto se tem apregoado e praticado;

6) A nível de instrumentos, temos bandolim, guitarras portuguesas e guitarras clássicas, sem qualquer instrumento de percussão visível.

Vimos isto e muitas mais coisas. Mas tão importante como o que vimos é aquilo que não vimos:

a) Vimos camaradagem franca e leal entre estudantes, independentemente da sua posição hierárquica, e entre academias;

b) Vimos uma espera de uma trupe a um caloiro;

c) Vimos que o veterano aparece para pedir protecção para o caloiro, não para agravar ainda mais a situação;

d) Vimos que a trupe pergunta “O que é pela praxe?” – não disparates em latinório macarrónico, como “Quid Praxis?”;

e) Vimos veteranos sempre trajados;

f) Vimos o à-vontade com que o caloiro “Já-cá-canta” (Humberto Madeira) convive com os outros repúblicos, mesmo com os veteranos, tratando-os por “tu”;

g) Vimos colegas mais velhos a brincar com colegas mais novos;

h) Não vimos imbecis a mandar “encher” e a berrar aos ouvidos;

i) Não vimos caloiros de olhos no chão, em posições humilhantes e com ar assustado;

j) Não vimos tanta imbecilidade a que hoje em dia se assiste gratuitamente, praticada em nome de uma invenção doentia a que infelizmente se colou com cuspo o nome de “praxe”;

k) Não vimos pretensos manda-chuvas em bicos de pés, a quererem ficar numa fotografia para a qual não foram convidados e onde fazem tanta falta como uma viola num enterro;

l) Não vimos a tuna a pedir licença fosse a quem fosse para ir onde lhe apeteceu ou fazer o que bem entendeu.

Pouco mais de uma hora e meia passada com um sorriso nos lábios. Definitivamente, um filme a ver e divulgar.


(1) De entre os nomes destes “imigrantes”, avulta o de António Pinho Brojo, que se deslocou para a Invicta pelas mesmas exactas razões que o nosso “Coca-Bichinhos”: frequentar a Faculdade de Farmácia. Este trânsito foi uma constante até aos anos 80, sendo frequente os estudantes de ambas as academias concluírem o curso na outra, fosse para seguirem planos de estudos que as respectivas universidades não ofereciam (Engenharia era um caso paradigmático), fosse para tentarem concluir uma cadeira cujo catedrático os tivesse “tomado de ponta”.